Olá, coletei fragmentos da entrevista do nosso querido Carlos Minc, ministro do meio ambiente para o site PLANETA SUSTENTÁVEL.

Ministro, de onde surgiu essa mania pelos coletes?
Pois é, alguém descobriu uma foto minha em Portugal, no exílio, com colete. Mas eu não usava tanto como agora. Hoje em dia, se não uso, as pessoas ficam chateadas comigo. Virei refém do modelito. Perguntam se foi roubado, se sujou se rasgou, ou coisas como “você não gosta mais de mim?” [risos].
Mas qual é a origem do hábito?
Bom, todo mundo já usou um colete na vida. Colete pode ter várias cores, não pesa que nem um casaco, é ideal para um lugar quente como o Rio de Janeiro, pode ser usado numa festa. Em suma, é uma peça do vestuário que te dá muita flexibilidade. Uma camisa lisa com colete fica uma coisa muito criativa. Esse que eu tô usando [pega na própria roupa], olha as bossas dele, é todo cheio de trico-trico, todo bonitinho. Isso aqui [aponta para as bolinhas verdes] olha isso aqui, são os botões!
Lindo mesmo, ministro.
E eu tenho vários assim!
Quantos?
Quando virei ministro tinha 32. Agora tenho 56. Ganhei vários. Vou ganhar mais um semana que vem. Os alunos de uma universidade de moda do Rio fizeram um colete ecológico pra mim. Outro dia alguém disse que foi a um chorinho em Laranjeiras [bairro da zona sul do Rio de Janeiro] e lá sempre tem uma pessoa vendendo um CD, um artesanato, e ele vendia o colete Minc.
Não era o caso do senhor cobrar royalties?
Achei legal, porque agora tá pegando essa história do colete. Algumas grandes redes estão lançando a peça. Então já dei minha contribuição pro lado fashion.
Há um boato na internet que seus coletes são à prova de bala.
Não são. Até hoje nenhum foi. Colete à prova de balas pesa 3,4 quilos.
Por falar em boatos, há muitas histórias obscuras a respeito de sua biografia. Sugiro ao senhor que usemos o espaço dessa entrevista para esclarecê-las.
Quais são as suas dúvidas?
Um dos aspectos mais obscuros de sua vida diz respeito à sua participação no roubo do cofre do governador paulista Adhemar de Barros, em 1969 [os guerrilheiros levaram 2,5 milhões de dólares]. Qual foi exatamente a sua participação nesse episódio?
Eu fui acusado disso, mas nunca foi provado nada a respeito. As pessoas eram torturadas, confessavam qualquer coisa, então eu não assumo essa participação. Todas as pessoas eram acusadas de qualquer coisa.
Então o senhor... [Interrompendo]
Não. Eu não assumo essa participação.
O senhor foi torturado?
Como todo mundo. Era o lado democrático da ditadura. Porrada pra todo mundo, um horror. Você fica totalmente entregue à máquina de torturar miolos. Um dos lugares onde me torturaram foi a Vila Militar, em Realengo, no Rio. E lá, não muito longe, tinha uma escola. As crianças ouviam gritos e as professoras reclamavam. Então eles punham música alta para as crianças não ouvirem os gritos. Só que quando a música começava as crianças choravam, porque sabiam que alguém estava sendo massacrado.
O senhor fazia parte da luta armada?
Digamos que participei de várias formas do movimento de resistência. Eu estava na clandestinidade, mas tenho uma resistência a entrar nessas questões porque tudo isso é muito desqualificado pelos próprios ditadores, e tinha essa história das torturas. Então prefiro dizer que participei sob as formas que existiam, como vários jovens da minha geração, sem nenhum destaque especial.
A época da ditadura coincide com a revolução sexual. O senhor viveu intensamente os anos de amor livre?
Vivemos. Tinha a teoria das relações múltiplas. Era tudo teorizado. As pessoas criticavam a monogamia burguesa, diziam que era uma relação de propriedade. Não era nada do tipo “vamos cair na gandaia”, era uma coisa impregnada de conteúdo revolucionário.
Tudo era ideologizado, inclusive o sexo.
Menos na hora agá, né? No nosso meio não havia fidelidade. Você podia namorar com uma pessoa e sair com outra. E naquela época não tinha Aids.
As garotas eram de fato tão liberais?
As meninas de esquerda eram mais livres. Também havia alguns líderes estudantis que, embora também tivessem um discurso contra a ditadura, eram mais conservadores. E a gente queria trazê-los pra esquerda. Quando todos os argumentos ideológicos fracassavam, o argumento final era o seguinte: “Olha, nossas meninas são livres para namorar, não são que nem essas burguesinhas que não dão pra ninguém” [risos]. Aí muita gente veio para a esquerda.
Bom argumento.
E definitivo! Muito superior a Che Guevara e Marcuse.
O senhor saiu da prisão em 1970, na troca pelo embaixador alemão [Ehrenfried Anton Theodor Ludwig von Holleben foi seqüestrado pela guerrilha e libertado em troca de 40 presos políticos] e seguiu para a Argélia. O que fazia lá? Nosso grupo ficou numa espécie de hotel-escola. A gente entrava em contato com a família, cuidava da saúde, provava um pouquinho a liberdade [risos]. Todo mundo tinha saído da prisão. Se bem que era um país que tinha a moral religiosa mais forte.
Por falar em homossexuais, é fato que o senhor adora paradas gays?
Adoro! Fico em transe. Me divirto, solto geral. Geral! Não perco uma. Mas não sou daqueles que fazem discurso e vão embora, não! Fico dançando até o fim. Eu me sinto à vontade. Fiz muitas campanhas também. Teve uma que fiz com o Fernando Gabeira [deputado federal] no Le Boy...
Sua última parada foi em Portugal, onde conheceu sua mulher (na época do exílio).
A Guida era minha aluna. Dizem, mas não provam que ela sentava na primeira fila, cruzava as pernas e me levava uma maçã. Ela nega. Pode ter sido uma tara que eu construí.
O senhor dividiu apartamento com o deputado Fernando Gabeira em Paris e, na volta ao Brasil, vocês fundaram o Partido Verde. O senhor não se sentiu constrangido em não apoiá-lo na disputa para a Prefeitura do Rio de Janeiro [Carlos Minc apoiou Eduardo Paes, que venceu a eleição]?
Senti. Mas por outro lado tem a questão de uma certa ética da responsabilidade.
Como assim?
Eu fui para o PT em 1989, na primeira campanha do Lula. Eu fui de uma ala do PT da qual o Chico Mendes havia participado – ele já tinha morrido assassinado em 88. Havia várias alas dentro do PT e tinha o lado mais ecológico e libertário. E eu estou no PT até hoje. Muita gente ficou achando que eu fui do PV durante esses anos todos. O que existia na verdade era uma relação PV-PT. Em 2002, o Gabeira se chateou com o PV, veio para o PT e a gente fez uma dobradinha. Sempre tinha a mística Minc-Gabeira, Gabeira-Minc, festas que a gente dava. No primeiro ano do governo Lula, o Gabeira se chateou com várias coisas e acabou voltando para o PV. Mas, ao longo do tempo, o PV não conseguiu se firmar.
Como o senhor avalia o trabalho dela (Marina Silva) no Ministério?
A Marina foi a melhor ministra do Meio Ambiente, talvez, da América Latina. Mais do que isso, ela se transformou num mito. Fez da sua fragilidade uma força moral e ética – foi contaminada por mercúrio, tem problemas de coluna e, ainda assim, enfrentou avião, a floresta Amazônica, o exterior, tudo com aquele xale dela. Ela tem uma coisa que me lembra muito o Betinho [Herbert José de Souza, sociólogo, idealizador do projeto Ação da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida, morto em 1997].
Houve também o episódio das batatas nas válvulas de escape dos ônibus.
Eu brigava com os ônibus urbanos por causa da fumaça preta que eles liberam. Fiz uma lei sobre isso, mas ninguém lia. Então decidi colocar batatas nas válvulas e os ônibus acabaram parando. Isso é um instrumento de luta. Vou duas vezes por mês, no mínimo, à Amazônia. E prometo que vou fazer isso até o último dia do mandato. Assim eu fico sabendo como as coisas estão na linha de frente. Vejo carro do IBAMA crivado de balas, o pessoal sem aparelho de comunicação. E outra coisa, o ministro subir em cima do trator e derrubar forno de carvão levanta a moral do pessoal. A pessoa sai na TV, valoriza. Isso também ajuda a dissuadir os criminosos ambientais.
Como assim?
Outro dia, apareceu na TV um sujeito que tinha uma fazenda de soja dentro de uma área protegida e eu dizendo: “Vamos embargar, você vai perder a sua soja e o dinheiro da venda vai servir para recuperar o crime ambiental que você cometeu nas nascentes deste rio”. Muitos que estão fazendo algo parecido viram a cara do proprietário, que foi preso. Isso desestimula quem acha que o Brasil ainda é a terra da impunidade. Tem gente que acha que sou porra louca, porque faço coisas que ninguém tinha feito, como leiloar boi pirata, e coisas que não se imaginaria que um ecologista fizesse,como acordos com o setor da soja. É possível ser firme e abrir um canal de diálogo.
Muito prazer. Parabéns, ministro, sua esposa é muito bonita.
Guida, você sabia que eu contei para ela todas as suas taras sexuais? [Guida faz cara de espanto].
É verdade. Estou em choque.
Todas, Guidinha, contei tudo [Guida vai embora com ar incrédulo].
Ministro, muito obrigada.
Ufa. Nunca contei tantas coisas numa entrevista.
Para ter acesso a toda entrevista, acesse: http://www.planetasustentavel.com.br/

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